Folheto Educativo: A Policia me Parou. E Agora?

Autor: CCS/Fotos: Justino Lucente

‘A Polícia me Parou. E Agora?’, material explicativo e educativo dos direitos e dos deveres dos cidadãos e das polícias, foi apresentado nesta terça-feira (31) às polícias Militar e Civil, Guarda Civil, Exército, membros do Conepir (Conselho Municipal de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra de Piracicaba) e lideranças, durante coletiva de imprensa no Gabinete do prefeito Barjas Negri. De maneira bem clara e técnica, o folheto tem o propósito de informar os cidadãos e aproximar o diálogo, muitas vezes laborioso, entre as forças policiais e os cidadãos.

Segundo Barjas, a Prefeitura de Piracicaba tem dado passos largos no sentido de combate ao racismo e à discriminação racial, sendo parceira do Conepir, seja atendendo a todas as solicitações e participando das atividades de maneira inerente. “Esse é um folheto simples, mas com mensagens fortes. As autoridades de Piracicaba precisam, sem exceção, trabalhar juntas para promover a igualdade”, afirmou Barjas Negri.

Material explicativo e educativo foi lançado no gabinete do prefeito Barjas Negri

A iniciativa contou com o apoio do delegado seccional João Sérgio Marques Batista. “Na formação de nossos jovens, assim como na Polícia Militar e na Guarda Civil, há disciplinas específicas sobre o tema (a abordagem policial). Esse assunto é recorrente, já que é tão importante”, disse.

“Temos cursos de qualificação e requalificação enfatizando o respeito à dignidade humana. A abordagem preventiva é uma questão de segurança”, afirmou a comandante da Guarda Civil, Lucineide Maciel. Ela parabenizou a iniciativa da Prefeitura e do Conepir. O coronel PM Lourival da Silva Júnior, comandante do CPI 9, disse que a Polícia Militar tem um sério compromisso com a comunidade. Ele explicou que a PM, em todo o Estado, faz um amplo trabalho, com 700 mil alunos, enfocando a relação da sociedade com a polícia. “A tranquilidade é o melhor caminho”, afirmou.

Sérgio Luis Souza, conselheiro do Conepir, enalteceu o apoio da Prefeitura nas questões do Conselho e agradeceu a participação das forças policiais. “Enquanto conselho, estamos plantando a promoção da igualdade racial. Quem vai colher serão nossos filhos e netos”, afirmou. Acácio Godoy, também membro do Conepir, destacou a luta para aproximar o jovem da polícia. “Há uma glamourização do crime e um ‘endemoniamento’ da polícia nas periferias. Isso tem que acabar, somos acusados de falar o óbvio, mas temos que falar o óbvio. Nesse folheto queremos que o jovem saiba como se portar numa abordagem policial, desmistificando o assunto”, concluiu Godoy.

‘Enquanto conselho, estamos plantando a promoção da igualdade racial’, disse Souza

FOLHETO – O informativo atende a solicitação da 1ª Conferência de Promoção da Igualdade Racial de Piracicaba. O Conepir articulou, junto à professora Elisa Lucas Rodrigues, coordenadora de Políticas dos Povos Negros e Indígenas da Secretaria da Justiça e Defesa da Cidadania, material que pudesse dirimir a distância entre a população negra e as polícias. O material de apoio já existia e foi produzido pela Ouvidoria das Polícias e do Policiamento Comunitário – SEDH/PR.

Num encontro do Conepir e do prefeito Barjas Negri, por meio da Chefia de Gabinete e do Centro de Comunicação Social da Prefeitura, foi confeccionado um lote de 5.000 folhetos, para serem entregues nos lugares de maior circulação, como terminais de ônibus da cidade e centros comerciais.

Para o Conepir, o material é de extrema importância porque a aproximação entre as polícias e os cidadãos pode colaborar para um maior entendimento e sensibilização quanto à situação de vulnerabilidade do negro na sociedade local.

Fonte: CCS

Lançamento do Adesivo Racismo é Crime.

Autor: CCS/Foto: Justino Lucente

A Prefeitura de Piracicaba e o Conselho Municipal de Promoção e Igualdade Racial de Piracicaba (Conepir) lançaram hoje (22 de agosto) o adesivo Racismo é Crime, criado a partir da Lei Municipal 8.178/15, de autoria do vereador e presidente da Câmara, Matheus Erler (PTB). O adesivo, 2.000 numa primeira etapa, serão fixado em estabelecimentos comerciais e próprios públicos municipais.

Como explicou Adilson de Abreu, diretor de relações institucionais do Conepir, esta é mais uma ação afirmativa que tem como parceira a Prefeitura, com apoio da Câmara, por meio do presidente Matheus Erler, e também da ACIPI (Associação Comercial e Industrial de Piracicaba). A história do selo começou na 1ª Conferência da Igualdade Racial, reivindicação feita pelo grupo de trabalho que tratava o tema Segurança e Promoção da Igualdade Racial e Educação.

Com a aprovação da proposta no final da Conferência, coube ao Conepir encaminhar a Erler, solicitando que a reivindicação fosse transformada em projeto de lei e, posteriormente, em lei municipal. Erler elaborou o projeto, que foi aprovado por unanimidade pela Câmara.

O Centro de Comunicação Social da Prefeitura (CCS) criou o logotipo do adesivo. Aprovada a arte, o Conepir entrou em contato com a ACIPI, por meio do superintendente Sérgio Furtuoso, para participar da parceria, tendo como responsabilidade viabilizar a logística de entrega deste material nos estabelecimentos comerciais. A proposta foi aceita pela ACIPI

O adesivo serão fixado também em próprios públicos municipais, com apoio do Sindicato dos Municipais de Piracicaba e Região, sob a responsabilidade do diretor Sérgio Luiz dos Santos, da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial, do Sindicato dos Municipais de Piracicaba e Região.

Nossa sociedade ainda não entendeu que atos de racismo são crime, assim como a discriminação de raça, gênero e credo. Temos que tratar da educação, pois cremos que, mais que punir, a sociedade precisa se educar e respeitar as diferenças, ressaltou o presidente do Conepir, Adney de Araújo.

Piracicaba terá a llª Conferência de Promoção da Igualdade Racial

conferencia

Convite para o evento

 

O Conselho de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra de Piracicaba – Conepir realiza neste sábado dia 23 às 08 horas, no Anfiteatro do Centro Cívico-Prefeitura de Piracicaba a llª Conferência da Igualdade Racial de Piracicaba, atendendo a lV CONAPIR – Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial. Momento este de debates para avanços da população negra no mercado de trabalho, saúde, educação, moradia, cultura e laser e outros. Este ano com os temas: “O Brasil na década dos afrodescendentes: reconhecimento, justiça, desenvolvimento e igualdade de direitos”. O combate à discriminação por crença, gênero, raça e etnia têm obtido muitas conquistas, mas a violência racial ainda é uma realidade que ameaça a democracia e a igualdade de direitos e oportunidades. Antes da etapa nacional, as conferências realizadas nos município ou regionalmente, e depois as conferências estaduais e a distrital, são a oportunidade de um grande debate nacional sobre o tema e de luta por avanços no sentido de dirimir a discriminação e o preconceito. As políticas públicas voltadas para população negra e combate à discriminação racial são obrigação de todos os governos, independentemente de ideologia política. A participação social e a realização das Conferências são uma conquista para o povo Piracicabano. Nesta ocasião o Conepir fará a prestação de contas dos avanços das propostas solicitadas na lª Conferencia da Igualdade Racial de Piracicaba e demais conquistas.

Contamos com a sua presença.

Sábado das 08 horas às 12h30min no anfiteatro da Prefeitura de Piracicaba.

Grêmio e Aranha, uma história de racismo perverso e continuado

Visto por dirigentes como “pessoa perigosa”, goleiro revive o trauma dos ataques racistas

Quando ainda era goleiro do Santos, em 2014, Mário Lúcio Duarte Costa, o Aranha, foi chamado de “macaco” por vários torcedores do Grêmio. Câmeras de televisão flagraram as ofensas racistas. O clube acabou punido com a exclusão da Copa do Brasil. No mesmo ano, o goleiro voltou a jogar na Arena do Grêmio. Passou a partida inteira sendo vaiado por uma expressiva parcela da torcida. Ao fim do jogo, afirmou que a manifestação, logo depois de ter sido alvo de injúria racial, reforçava o preconceito dos gremistas que o atacaram e que aquelas vaias não eram normais. Repórteres que o cercavam se comportaram como inquisidores. Alguns, lançando sorrisos provocativos, insinuavam que Aranha deveria reagir calado ao açoite.

Continue reading “Grêmio e Aranha, uma história de racismo perverso e continuado”

Polícia do RJ apreende menor por ofensas a filha de ator na internet

Filha de Bruno Gagliasso foi alvo de ofensas racistas no mês passado.
Jovem confessou ter criado perfil falso; polícia levou outras 7 pessoas à DP.

Continue reading “Polícia do RJ apreende menor por ofensas a filha de ator na internet”

Racismo no trabalho diminuiu, mas há longo caminho à frente, diz autor

A participação de negros em cargos executivos de empresas ainda é muito baixa no Brasil.

trabalho-carreira-promocao-profissao-emprego-1302047032586_615x300
Segundo dados do instituto Ethos, em estudo sobre as 500 maiores empresas que operam no país, eles representam 4,7% do quadro executivo. Na gerência, um nível abaixo na hierarquia, esse percentual sobe um pouco, para 6,3%. Entre supervisores chega a 25,9%.

Continue reading “Racismo no trabalho diminuiu, mas há longo caminho à frente, diz autor”

Nossos parabéns a todas as mulheres

Manifesto de repúdio do Conepir a qualquer ato de discriminação

Nos dias 24, 25 e 26 de abril de 2015, Piracicaba terá sua primeira Conferência Conjunta de Direitos Humanos.

O Conepir defende a adoção de todas as crianças por todos os tipos de casais (heterossexuais e homo-afetivos), irrestritamente.

Confira abaixo uma de muitas histórias bem sucedidas, retirada do portal Estadão, contada diretamente por um casal que possui todas as estruturas necessárias e legais para desenvolver mais um futuro cidadão.

Casal gay conta história de adoção do filho, rejeitado por três casais heterossexuais: “Acharam ele muito feio e negro demais”.

Scofield

Gilberto Scofield Jr, PH e Rodrigo Barbosa: “Somos uma família como qualquer outra família do país”. 

 

Hoje por Gilberto Scofield Jr, Jornalista

No fim de outubro, terminado o segundo turno das eleições, um telefonema de um dos grupos de adoção empenhados na busca ativa de pais para crianças em abrigos nos avisou. Havíamos sido habilitados pela Vara de Família do Rio em julho e, três meses depois, uma criança que se encaixava em nosso perfil estava num abrigo numa pequena cidade no Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais. Partimos, com os corações aos pulos, eu e meu companheiro de 12 anos, numa viagem que nos pareceu interminável até Capelinha, cidade no Norte de Minas onde fica o Abrigo Lar Mamãe Dolores. Trata-se de uma jornada de avião até Belo Horizonte, outro voo até Montes Claros e quatro horas de carro alugado até Capelinha.

Durante a jornada, dentro do carro – e são 252 quilômetros entre Montes Claros e Capelinha – nossas cabeças doíam na expectativa do que poderia acontecer: será que ele vai com a cara da gente? E se ele não gostar de dois pais? Entre as intermináveis plantações de eucalipto que margeiam a rodovia estadual MG-308, a ansiedade só fazia crescer. Depois da ida à Justiça local, da visita ao advogado que daria entrada no pedido de guarda provisória, chegou a hora de conhecer o moleque.

O Lar Mãe Dolores é um abrigo simpático e simples para uma cidade paupérrima como Capelinha. PH estava lá: um menino de quatro anos que foi se aproximando desconfiado, mas que depois de 15 minutos, já estava brincando alegremente de carrinho com a gente. Nossos corações se encheram de esperanças, era emoção demais, carência demais de um lado e do outro, vontades súbitas de cair em prantos a troco de nada.

Negligenciado pelos pais alcoólatras, PH foi parar no abrigo aos dois anos de idade quando a mãe morreu (aos 28 anos) de complicações do vício. O pai decidiu que não queria mais criar o filho. Seis meses depois, uma mulher solteira em São Paulo o pegou para adoção, mas acabou denunciada pelo próprio irmão e por uma vizinha por maus tratos, obrigando a Justiça intervir, devolvendo-o de novo ao abrigo. Mais uma rejeição.

Antes de nós, três casais heterossexuais já haviam visitado PH no abrigo e também o rejeitaram: dois porque o acharam “muito feio”. O terceiro porque, para eles, PH era “negro demais”. Hoje, nós completamos quatro meses com ele no Rio, em nossas vidas. Ele está num pré-escolar, frequenta aulas de natação e ginástica e não poderia estar mais feliz com as novidades da nova vida. É um exercício especial de paternidade, aquela busca delicada entre dar a ele a sensação de pertencimento e acolhimento que ele precisa numa família que nunca teve e os limites que um menino de (agora) cinco anos precisa num momento em que testa tudo em relação à autoridade dos pais. Precisamos dar amor e ensinar o que é amor. Mas precisamos educar. Não faz parte de nosso planos criar um pequeno tirano. Como diz uma amiga: ser pai é a arte de dizer não. Mas não é assim em todas as famílias?

Toda essa história que aconteceu nos últimos meses e virou a minha vida – e a de meu companheiro – de cabeça para baixo, com um final mais do que feliz e que pode ser conferido por todos os amigos que nos cercam, é apenas para deixar claro o seguinte: nós – eu, meu companheiro, nosso filho PH, nossos dois gatos e nosso cachorrinho – somos uma família como qualquer outra família do país.

Esta colocação tem uma razão: a tentativa do inominável deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara e membro da bancada evangélica que se esmera como pode pela medievalização do país, decidiu ressuscitar o Estatuto da Família, que restringe a casais heterossexuais a adoção de crianças, entre outras medidas, como a proibição irrestrita do aborto. Isso num momento em que há farta literatura científica provando que crianças criadas por casais homossexuais não diferem em nada de crianças criadas por casais heterossexuais.

Portanto, os fundamentos de Cunha – o mesmo que começou sua carreira política de conchavos ao ser nomeado presidente da finada Telerj, ainda no governo de Fernando Collor de Melo (o que dá bem a ideia da trajetória política do deputado) – são meramente religiosos. E aí voltamos às intermináveis tentativas da bancada evangélica de acabar com a laicidade do Estado, transformando-o numa interpretação tosca e manipulada da Bíblia protestante.

Não, deputado Eduardo Cunha. O senhor não tem o direito de determinar o que é família num mundo em transformação e num país onde o percentual de famílias chefiadas por mulheres passou de 22,2% para 37,3%, entre 2000 e 2010, segundo dados mais recentes do Censo Demográfico de 2010. Isso não torna as adoções lideradas por casais homossexuais mais perfeitas ou melhores que as adoções feitas por casais heterossexuais. Simplesmente não há diferença constatada por qualquer estudo científico sério.

O que o Estatuto da Família faz é dar aos casais heterossexuais o monopólio da criação “perfeita” de filhos, quando todos nós conhecemos casais heterossexuais cujos filhos são desajustados ou simplesmente maus. O noticiário está aí cheio de exemplos de rapazes e moças que atropelam e matam pessoas sem prestar socorro. Ou bandos de jovens de classe média bem criados cuja maior diversão é tacar fogo em mendigos ou bater e espancar prostitutas, gays e nordestinos.

Não, deputado Eduardo Cunha. A paternidade virtuosa não é um monopólio da heterossexualidade. E caso a sua religião não pregue a tolerância, preste atenção num fato muito simples: toda a criança adotada por um casal de gays ou de lésbicas foi abandonada/espancada/negligenciada por um casal heterossexual, esse mesmo que o senhor julga serem os únicos capazes de criar filhos “normais”.

____________________________________________________________________________________________

Nesta terça-feira, 24/02, ao meio-dia, será feito um “tuitaço” e um “facebookaço” contra o estatuto da família usando a hashtag #emdefesadetodasasfamílias. Publique a foto da sua família, seja ela qual for: sem filhos, formada por um pai e seu filho, uma mãe e seu filho, dois pais e seus filhos, duas mães e seus filhos, casal heterossexual e filhos, avó e neto, transexuais e seus filhos e toda e qualquer forma de família.

Bonecas negras ensinam a combater o racismo brincando

De Douglas Belchior

Em tempos de Carnaval, festa popular de fortes raízes afrobrasileiras, é sempre bom lembrar que apesar dos sorrisos, gracejos, admiração e suspiros provocados pelo corpo negro nas avenidas e consequentemente nas estampas de jornais, revistas e TV, os quatro dias de folia não compensam o racismo violento e cotidiano que sofremos no Brasil.

Por isso, em pleno final de semana de festa, resgatamos o brilhante trabalho da jornalista Danielle Silveira, publicado pelo respeitadíssimo jornal Brasil de Fato, em Dezembro de 2013. Trata-se da matéria “Bonecas negras ensinam combater o racismo brincando”, tema pelo qual iniciamos a aula no Cursinho Comunitário da Uneafro-Brasil, no núcleo da cidade de Poá.

Vale muito a pena ler e compartilhar!

 

Por Daniele Silveira – Brasil de Fato

O racismo e a vontade de se ver representada levaram Ana Júlia dos Santos a usar sua arte como forma de expressar as especificidades da população negra brasileira. Há 15 anos, a artesã faz bonecas negras, que subvertem o estereótipo “nega maluca” e fornecem novas armas para o combate ao preconceito.

Ana Fulô, como é conhecida, conta que foram poucos os brinquedos durante sua infância, mas lembra de “nunca ter tido uma boneca negra”. Talvez, mais marcante do que a falta de referências ainda quando pequena tenha sido o relato de uma de suas netas sobre um trabalho de escola em que deveria montar uma “bonequinha”.

“A professora disse ‘Agora quando você fi zer a boneca negra, você põe um pedaço de Bombril [esponja de aço] para imitar o cabelo dela’. Ouvi esse relato da minha neta. A minha filha ficou mal, se dirigiu à professora e questionou isso. Foi retirado o trabalho. Não foi feito mais.”

Coincidentemente, com a experiência de racismo vivida pela neta, Fulô explica que procurou uma feira para expor seu artesanato, mas não havia mais vagas. Então, a coordenadora do espaço sugeriu que ela fizesse bonecas negras, pois a artesã que desenvolvia esse trabalho havia falecido. Neste encontro de situações, Fulô deparou-se com a oportunidade de expressar sua identidade e combater o racismo.

“Eu notei que as meninas negras brincam com as bonecas brancas, mas nem sempre as meninas brancas brincam com as bonecas negras. Então, eu quis tirar aquela maneira da pessoa tratar a boneca negra como a ‘nega maluca’. Eu quis fazer as meninas bonitas. Então, eu comecei a trabalhar nesse sentido até para elevar a autoestima das nossas crianças e mostrar para elas que os brinquedos delas podem ser tão ou mais bonitos que os outros.”

Olhos claros, pele escura

No circuito das grandes lojas de brinquedos são raras as bonecas negras. E quando estão presentes, geralmente trazem traços característicos de pessoas brancas, alterando apenas a cor da pele. Dessa forma, fabricantes de brinquedos não se intimidam em apresentar bonecas negras com olhos verdes ou, ainda, reforçar preconceitos com a reprodução de estereótipos.

Artesã e professora do Ensino Fundamental, Lúcia Makena faz bonecas negras há mais de dez anos. Ela avalia que o mercado formal de brinquedos não demonstra interesse em conhecer e representar a população negra.

“A indústria, eu acredito que quando ela faz uma boneca negra, ela não está muito preocupada com a questão da identidade e da cultura. Eu acho que eles só colocam tinta marrom e pronto, né. E a preocupação que eu acho que as empresas deveriam ter é de pensar quem é esse povo negro, qual é essa cultura, qual o seu modo de ver a vida, o que é importante para eles, e eles [as empresas] não se preocupam com isso.”

Arte-educadora, Makena ainda destaca a importância do trabalho para a educação das crianças na questão da diversidade étnico-racial. “Eu acredito que os brinquedos fazem parte desse processo de formação das crianças. Então, você tem que fazer bonecas contemplando as etnias. Não pode a criança passar a vida inteira comprando bonequinhas loiras, loiras, loiras, se muitas vezes elas não são loiras e muitas vezes elas não vão se identifi car com aquilo. Vai trazer uma impressão de que a sua referência de beleza é outra.”

Brincadeira séria

Assim como Makena, Fulô considera fundamental a função educacional dos brinquedos. “Nenhuma criança nasce preconceituosa. Isso é coisa que vão colocando na cabecinha dela. Eu acho que a partir do momento que ela começa a brincar, ela tem um entendimento da diversidade de raça. Coloca as duas para a criança brincar, se a gente percebe que ela não integra a boneca negra nas brincadeiras, então, ali tem algum problema. Aí é que se começa a trabalhar a cabecinha da criança.”

Para Fulô, mais do que bonecas, suas criações são personagens que possuem histórias próprias. Juntamente com a arte do desenvolvimento de cada novo molde, roupas e outros adereços que acompanham suas meninas, ela pensa  também na identifi cação de cada boneca. Assim, costuma presentear quem compra seu trabalho com textos sobre o que ela imagina para cada menina.

Ninguém nasce racista

Em sua experiência pessoal na exposição e venda de bonecas negras, Fulô conta que não costuma encontrar resistência ao seu trabalho nas crianças, mas sim nos adultos.

“Muitas vezes vi uma menina branca falar ‘ah, eu quero essa boneca!’ Aí o pai ou a mãe falar ‘Mas justamente essa?! Por que você não escolhe outra? Eu compro a que você quiser’. E a menina bater o pé e falar ‘ Não. Eu quero essa!’. Existe uma certa relutância em relação aos pais darem a boneca para a menina.”

Lúcia confirma que há maior preconceito entre os adultos, e compartilha a reação comum entre os pequenos diante de suas criações.

“As crianças dificilmente têm rejeição porque criança e é criança. Como dizia Mandela ‘nenhuma criança nasce odiando’. Então, elas veem, gostam, pegam, abraçam.”

Artistas como Ana Fulô e Lúcia Makena encontraram um jeito divertido de educar. É muito mais que uma forma criativa de melhorar os rendimentos. A cada pedaço de tecido remendado, vão ajudando a costurar um país que respeita a diversidade.

Acompanhe o site do Negro Belchior via carta Capital

http://negrobelchior.cartacapital.com.br/2014/03/03/2859/

Rede de defesa às vítimas de preconceito racial é oficializada

 

Data: 14/11/2014

O prefeito de Piracicaba, Gabriel Ferrato, assinou ontem, 13, convênio com a Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania do Estado de São Paulo, que inclui a cidade na rede de proteção às vítimas de preconceito racial, com base na Lei 14.187/2010. Para acessar o serviço, basta o cidadão entrar na página online da Prefeitura (www.piracicaba.sp.gov.br) e clicar no logo São Paulo Contra o Racismo. Automaticamente, será direcionado a um cadastro para descrever o caso, que é imediatamente analisado pelo setor jurídico da Secretaria e acatado, em caso de sustentação da denúncia prevista na Lei 10.177/98, a qual regula o processo administrativo no âmbito da administração pública.
“Estamos dando mais um passo na construção do edifício da cidadania em Piracicaba. São duas as linhas principais de nosso trabalho: de um lado, dotar o município de elementos institucionais que assegurem a garantia de direitos; de outro, uma atuação efetiva na defesa de valores sociais e democráticos que ajudem a disseminar uma cultura de respeito entre os cidadãos, o que inclui o respeito e a convivência harmônica com a diversidade. Temos a convicção de que esse é o caminho para o bem-estar social, como demonstram as sociedades mais avançadas. Para isso, temos que  romper todas as barreiras com relação a qualquer tipo de preconceito”, disse o prefeito Gabriel Ferrato.
Paralelo ao serviço que passa a ser oferecido em Piracicaba pelo governo estadual, também foi instituído na cidade, junto ao SIP 156, da Prefeitura, o Disque Racismo, que acolhe denúncias de racismo e as encaminha ao Ministério Público. Tanto o convênio estadual quanto o SIP 156 atendem às reivindicações levantadas na 1ª Conferência de Promoção da Igualdade Racial, realizada em Piracicaba pela Prefeitura e pelo Conselho de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra de Piracicaba (Conepir).
Durante a assinatura do convênio, no gabinete do prefeito, a representante da secretaria estadual  da Justiça e da Defesa da Cidadania, Elisa Lucas, Coordenadora de Politicas para População Negra e Indígena, expressou seu carinho por Piracicaba, em especial pelo fato de o setor público local não apenas demonstrar respeito às questões éticas e raciais como também se empenhar para criar mecanismos institucionais efetivos de combate ao preconceito no município. Ao observar que o governador Geraldo Alckmin também está trabalhando com celeridade para ampliar a cota de negro nos concursos públicos do estado, destacou: “As políticas afirmativas são um remédio amargo mas temporários para resolver um problema histórico do país”.
De acordo com o coordenador-político da Conferência de Promoção da Igualdade Racial de Piracicaba, Adilson Abreu, o convênio e o SIP 156 são relevantes, pois agora o cidadão negro, quando vítima de racismo, discriminação ou injúria racial, tem mais de um canal de defesa à sua disposição, que o conecta diretamente com instâncias maiores, como o Ministério Público e a Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania.
Adilson Abreu disse também que esse tipo de serviço que não exige a presença do denunciante é fundamental para o avanço da rede de proteção contra o racismo. “Ao telefone ou pelo cadastro online o cidadão se sente mais à vontade para se expor e contar detalhes do ocorrido, sem que se sinta constrangido diante de alguém em uma entrevista pessoal”, observou. As denúncias que chegam pelo SIP 156 são encaminhadas ao Conepir, que tem sete dias úteis para encaminhar a vítima à delegacia de polícia, para a instauração de inquérito policial.
O Ministério Público e o Poder Judiciário também são comunicados formalmente pelo Conepir dos casos de racismo no município, para que as instâncias registrem suas estatísticas e mapas de ocorrências de crimes dessa natureza, a fim de colaborarem na elaboração de políticas afirmativas e positivas.
Segundo o Disque Racismo SIP 156, racismo é a teoria que divide a raça humana em diversas outras, utilizando diferenças baseadas em etnia, descendência ou cor de pele. Portanto, uma atitude racista é aquela que visa demonstrar falsa superioridade de uma “raça”, prejudicando a vítima e desrespeitando a Constituição Brasileira. Normalmente, essa postura se manifesta como discriminação, que pode impedir inclusive a vítima de exercer seus direitos, seja por causa de atitudes que denotam exclusão social, profissional ou familiar.